O que é a cultura do cancelamento?

Você sabe o que é a cultura do cancelamento e por que ela vem ganhando tanto destaque na mídia? Em um contexto em que quase todo dia alguém é “cancelado” nas redes sociais, é importante compreender esse comportamento. Afinal, o que significa “cancelar” uma pessoa e quais motivos levam a esse fenômeno?

Entenda o que é a cultura do cancelamento?

Vivemos em um momento em que está ocorrendo um processo de desconstrução de práticas e costumes inerentes à estrutura social. Basicamente, comportamentos que antes eram normalizados, como comentários machistas, racistas e homofóbicos, hoje não são mais aceitos. Cada vez mais pessoas, conscientes de que esses são comentários errados, se manifestam contrariamente a quem profere tais falas.

As redes sociais são um ambiente fértil para debates, pois muitas pessoas passam grande parte dos seus dias online. Dessa forma, a internet se tornou um espaço para a manifestação de opiniões e discussões a respeito de vários temas.

Contudo, não é incomum que nesse âmbito virtual as manifestações contra comportamentos entendidos como errados se transformem em um tipo de linchamento virtual do indivíduo responsável.

É como se aqueles que estão julgando o comportamento errado infligissem uma punição ao indivíduo que o produziu. Funciona mais ou menos como se fosse uma justiça social. Porém, como todo mundo é suscetível a cometer erros, há muitos “cancelamentos” acontecendo.

O que leva alguém a ser “cancelado”?

O “cancelamento” dos indivíduos está relacionado ao seu comportamento. Basicamente, isso significa que, para uma pessoa ser cancelada, ela agiu de uma forma que é considerada errada e que socialmente não é tolerada. Devemos fazer um adendo de que boa parte dos cancelamentos acontece devido a conflitos de opiniões e pensamentos decorrentes da crença de que há certo e errado.

Os indivíduos cancelados são excluídos da sociedade por um grupo específico e sofrem com linchamentos virtuais, além de poderem ser punidos pelo comportamento se isso estiver previsto na lei.

Há casos em que o cancelamento é apenas temporário, o indivíduo tem a oportunidade de se desculpar e mudar sua conduta, passando a ser aceita novamente por um determinado grupo social.

É interessante observar que o comportamento que leva ao cancelamento não precisa, necessariamente, ter acontecido no presente. Por exemplo, se postagens antigas de uma pessoa são recuperadas e possuírem cunho machista, homofóbico ou racista, podem gerar o cancelamento, ainda que o indivíduo não pense mais dessa forma.

Também vale citar que o cancelamento de um indivíduo nem sempre está relacionado a debates de questões relevantes, como racismo, homofobia, machismo, xenofobia ou outros. Pode acontecer em decorrência de motivos banais como, por exemplo, quando alguém manifesta desgosto ou não apoia algo bastante popular.

A cultura do cancelamento nas redes sociais

A cultura do cancelamento é observada especialmente nas mídias sociais, uma vez que se trata de uma corrente que incentiva as pessoas a deixarem de apoiar indivíduos ou empresas, públicas ou não, que tenham produzido um comportamento considerado como errado.

Embora a ação conhecida como “cancelar” alguém devido a seus comportamentos já exista há anos, ganhou mais visibilidade através do movimento feminista “#MeToo”.  Esse movimento se popularizou em 2017, a partir do pedido da atriz Alyssa Milano para que todas as pessoas que foram vítimas de assédio sexual usassem a hashtag #MeToo (eu também, em português) no Twitter para contar sua história.

A hashtag viralizou e chegou até as estrelas de Hollywood, que expuseram situações em que passaram por abusos e assédios. Um caso que ganhou grande repercussão foi o do ex-produtor de filmes Harvey Weinstein.

Os relatos de dezenas de mulheres assediadas por ele levaram a uma condenação de 23 anos de prisão. Weinstein usava sua posição de poder para calar suas vítimas e evitar os processos, inclusive com ameaças de destruir a carreira de atrizes.

A divulgação de outros casos fez com que os homens públicos relacionados a eles fossem alvo de boicotes, tanto em âmbito profissional quanto pessoal. Esses indivíduos foram “cancelados”. Conforme o tempo foi passando, a prática do cancelamento foi mudando e passando a ser aplicada também em relação a pensamentos e opiniões divergentes.

O hábito de se desculpar

Hoje em dia, o indivíduo não precisa necessariamente se envolver em uma polêmica, basta que diga algo contraditório ou que possa gerar uma interpretação ruim pelo público. Uma consequência desse rigor da cultura do cancelamento é o aumento de pedidos de desculpas públicas.

Basta que algo que foi dito, ainda que analisado fora de contexto, ganhe a mídia para que famosos apareçam em seus perfis se desculpando ou emitam um texto com justificativas. Atualmente, há o medo de que o cancelamento se torne passível de punir qualquer pequeno deslize. Embora essa cultura possa se manifestar fora da internet, é nela que a prática ocorre essencialmente.

O cancelamento é bom ou ruim?

O cancelamento tem uma função pedagógica de ensinar aos indivíduos que cometem erros que seu comportamento não é socialmente adequado. Porém, quando se trata de corrigir um erro cometendo outro não é possível alcançar bons resultados. Alertar e debater a respeito de questões socialmente estruturais, visando melhorar o convívio com as minorias, é positivo.

Porém, quando se torna um movimento de linchamento e exclusão daquele que errou, acaba se enveredando pelo mesmo caminho errado. Observar comportamentos inadequados é importante, mas não se deve tratar a internet como um tribunal. Tudo tem limite, inclusive essa ação pedagógica do outro.

Corrigir sim, mas com tolerância e respeito. Ensinar o motivo de tal fala ou comportamento serem considerados errados é muito mais importante do que linchar alguém vitualmente.

Refletir a respeito da cultura do cancelamento é importante para se posicionar e evitar fortalecer movimentos que mais propagam o ódio do que defendem uma causa. 

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