Gripe espanhola – O que é? Quanto tempo durou?

A pandemia do novo coronavírus tem feito muitas pessoas pesquisarem quanto tempo durou a gripe espanhola, também chamada de gripe de 1918, que foi responsável pela infecção de um quarto da população mundial (500 milhões de pessoas), como um possível paralelo para a situação atual.

Neste texto iremos explicar como a pandemia do vírus influenza dizimou um número maior de vítimas que a Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918), acompanhe.

O que é e quanto tempo durou a gripe espanhola?

A pandemia do século passado se estendeu entre janeiro de 1918 e dezembro de 1920, vitimando pessoas no mundo todo, inclusive no Brasil. Em 1918, tropas inteiras ficaram gripadas, no entanto, não era uma gripe comum.

A doença, que começava com febre e dor de cabeça, evoluía para sintomas mais graves culminando em falta de ar. Os doentes faleciam devido à incapacidade de respirar, pois seus pulmões ficavam cheios de líquido.

Para se ter uma ideia, a pandemia de gripe espanhola foi mais mortal do que a Primeira Guerra Mundial. Enquanto o conflito ceifou a vida de cerca de 9 milhões e 200 mil pessoas, o vírus influenza de 1918, vitimou entre 20 e 40 milhões. No entanto, há historiadores que defendem que o número de mortos chegou a 100 milhões.

Por que gripe espanhola?

O surto de gripe espanhola começou durante a Primeira Guerra Mundial e os países envolvidos no conflito (Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos) tentaram minimizar e esconder a gravidade da situação sanitária para manter o ânimo dos soldados nas trincheiras.

Ao passo que esses países censuravam as notícias a respeito da pandemia, a Espanha (que não estava participando da guerra) deu liberdade para a imprensa noticiar as condições do país. Isso criou uma falsa impressão de que a Espanha tinha sido mais atingida pela gripe do que os outros países, de maneira que a doença recebeu a alcunha de “gripe espanhola”. Uma curiosidade é que na Espanha a doença era chamada de gripe francesa.

Qual a origem do vírus da gripe espanhola?

Essa é uma pergunta que não tem uma resposta comprovada, algumas teorias foram levantadas por cientistas a partir de alguns estudos. Em 1999, o virologista John Oxford liderou um estudo que identificou um acampamento hospitalar britânico em Étaples, na França, como possível ponto de surgimento da doença.

O local em que passaram milhares de soldados com os mais variados problemas ficava próximo a uma pocilga em que eram mantidas aves para suprimentos. O pesquisador acredita que o vírus possa ter surgido nas aves e passado por uma mutação, infectando os porcos criados nas proximidades e, em seguida, o homem.

Alguns historiadores apontam que a origem do vírus seria o estado do Kansas, nos Estados Unidos. No entanto, trabalhos de investigação científicas recentes discordam dessa hipótese. Também se levantou a possibilidade de a origem ser chinesa, pelo fato de o país ter sido um dos menos afetados pela pandemia.

Os defensores dessa tese dizem que isso ocorreu porque os orientais já tinham imunidade adquirida de uma primeira onda mais leve. Atualmente, acredita-se que a menor incidência da gripe espanhola na China foi decorrente de cuidados preventivos da medicina tradicional chinesa.

Evolução da gripe espanhola

Como ficou claro, não há certeza de como a gripe espanhola surgiu e nem porque se tornou uma doença tão mortal. De acordo com estudos realizados entre as décadas de 1970 e 1990, a cepa do vírus influenza que desencadeou a pandemia teria surgido em 1916. Ao longo dos anos, o vírus foi passando por mutações graduais até se tornar altamente mortal em 1918.

Um elemento que contribui para reforçar essa tese é um misterioso surto de encefalite letárgica, ocorrido em 1916. Essa enfermidade era um tipo de doença do sono que passou a ser associada com o surto de gripe espanhola.

Alguns relatos de médicos do período mencionam que, em um primeiro momento (fevereiro de 1918), mesmo a doença sendo muito contagiosa, não era perigosa, deixando os doentes acamados com febre e mal-estar por três dias apenas.

Já a segunda onda da gripe, que ocorreu em agosto de 1918, veio com mais intensidade tornando-se mortal. Os pacientes inicialmente tinham uma gripe comum, que logo se convertia em uma pneumonia viscosa nunca vista até então.

Grande parte dos pacientes apresentavam manchas castanhas nas maçãs do rosto. Não demorava para que uma cianose se espalhasse por todo o rosto, partindo das orelhas. Os indivíduos afetados faleciam sufocados.

Gripe espanhola no Brasil

Em setembro de 1918, a doença chegou ao Brasil através do navio inglês “Demerara”, que vinha de Lisboa, em Portugal. Doentes que estavam a bordo desse navio desembarcaram em Salvador, Recife e Rio de Janeiro, a então capital federal. Também em setembro de 1918, desembarcaram em Recife marinheiros doentes que prestaram serviço militar em Dakar, na África.

Em menos de um mês já havia casos de gripe espanhola em várias cidades do Nordeste e em São Paulo. O Brasil não estava preparado para enfrentar a pandemia por ignorar os avisos vindos da Europa. Foi um período em que os brasileiros tinham medo de sair às ruas e quem tinha dinheiro se refugiou no interior para fugir da doença.

Houve uma situação semelhante a que vivemos em 2020, com regiões movimentadas das grandes cidades vazias, comércios fechando por falta de funcionários e clientes. Carlos Chagas assumiu a direção do Instituto Oswaldo Cruz durante a pandemia para tentar estruturar uma reação à doença que estava levando muitos brasileiros a óbito.

Acredita-se que entre outubro e dezembro do ano de 1918, cerca de 65% da população brasileira foi contaminada pela gripe espanhola. No Rio de Janeiro houve o registro de 14.348 mortes e em São Paulo foram mais de 2.000 mortes.

Como acabou a pandemia de gripe espanhola? O que podemos aprender?

No final do ano de 1918, houve a segunda onda letal de gripe espanhola, porém, depois desse período de auge da doença, houve queda abrupta no número de óbitos. Um exemplo que ilustra bem essa situação foi o da Filadélfia, no estado americano da Pensilvânia, em que houve 4.597 óbitos na semana que terminou no dia 16 de outubro e um posterior desaparecimento da doença em 11 de novembro do mesmo ano.

Possíveis explicações para isso são as de que os médicos se tornaram mais eficientes em prevenir e tratar a doença e/ou que o vírus teria passado por uma mutação que o tornou rapidamente menos letal. Os especialistas acreditam que a segunda hipótese é a mais plausível. Foi identificada a tendência de vírus influenza tornarem-se menos letais com o passar do tempo.

Em se tratando da vida das pessoas pós-pandemia de gripe espanhola, observou-se maiores índices de incapacidade física, desempenho escolar comprometido, elevação da evasão escolar, aumento das desigualdades sociais e potencial associação com outros problemas de saúde, como o surto de encefalite letárgica que já mencionamos.

O que o capítulo histórico da gripe espanhola nos ensina é que é preciso seguir as recomendações de prevenção, como isolamento social e uso de máscara, bem como prestar atenção às mazelas sociais que serão deixadas como sequelas da crise.

Conhecer a história da pandemia de gripe espanhola contribui para desenvolver uma visão mais clara a respeito da pandemia de coronavírus que estamos vivendo atualmente.

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